Inclusão Digital à beira do rio Tapajós

25 de setembro de 2008 por Paulo Lima

Por Isabel Gnaccarini, especial para a Envolverde

Lançado em Santarém, durante o 8º Encontro da Teia Cabocla, o blog da Rede Mocoronga de Comunicação Popular (http://www.redemocoronga.org.br) é a primeira iniciativa no gênero e resultado do trabalho de inclusão digital que ocorre às margens dos rios Arapiuns e Tapajós, nos municípios de Santarém e Belterra, estado do Pará, em plena Floresta Amazônica.

O blog é uma mostra de como a apropriação dos instrumentos de comunicação pelos jovens pode ajudar a transformar sua realidade de forma ativa. “Os jovens estão em um relativo isolamento, e de alguma forma sofrem o impacto do mundo urbano aqui na Amazônia. Há um grande desejo de ser ‘moderno’, renegando sua própria cultura. O blog colaborativo é um passo: “postar” uma matéria é preservar sua identidade, colocando-se na era digital”, propõe Fábio Pena, Coordenador de Educação e Comunicação do Projeto Saúde e Alegria.

Leia a entrevista com Jardson Melo, da comunidade de Suruacá.

Através dos blogs das comunidades já religadas ao blog-mãe, os conteúdos locais ganham o mundo, colocando os ribeirinhos na sociedade da informação. Cada comunidade tem seu próprio endereço web, e a edição dos posts é local. As matérias vão parar na página central do blog participativo, para depois um comitê editorial central selecionar as principais matérias como manchetes da página principal.

O maior desafio do processo é inverter o fluxo de comunicação, e abrir canais entre a própria população. A internet permite que a Amazônia seja apresentada pelos próprios moradores, difundindo a realidade, cotidiano e cultura regional da população. Ao usar a internet como uma ferramenta de afirmação identitária, abre-se ao jovem da zona rural da floresta muito mais do que uma simples janela para o mundo moderno.

Assim é para Mônica Almeida, da comunidade de Belterra. O lugar é um dos pioneiros em blogs e vídeos. Quando Mônica escreve, sabe que é para pessoas de longe. Mas que também é um jeito rápido de passar uma notícia aos vizinhos… “A baleia que apareceu aqui nas margens foi uma sensação que chamou a atenção de muita gente em outras comunidades, que, no momento do acontecido, nem rádio e TV tinham. Foi legal: todo mundo comentou o caso por causa do blog.”

O acesso à internet só é possível graças à implantação de Telecentros de Cultura às margens dos rios – até agora são seis telecentros em funcionamento, e a previsão é de chegar a um total de 11 pontos até 2009. Seus espaços físicos são postos avançados da Rede Mocoronga. Com arquitetura regional, dispõem de computadores com software livre e acesso à internet via satélite ou conexão sem fio, movidos à energia solar! Estas ferramentas permitem ainda incorporar mídias digitais ao processo de produção da Rede. Nas comunidades, os pontos de cultura digital são usados para exposições, atividades educativas e eventos de cultura e entretenimento.

Inclusão Digital e a Teia Cabocla

O encontro da Teia Cabocla, onde foi lançado o blog participativo, reuniu este ano 83 jovens lideranças. O importante encontro faz o balanço anual da produção das 31 comunidades engajadas na Rede Mocoronga, pois é nessa ocasião que a juventude reúne-se periodicamente para avaliar e planejar os projetos de suas comunidades.

O projeto de inclusão é capitaneado pelo Projeto Saúde e Alegria, e forma adolescentes e jovens através de oficinas de educomunicação para que atuem como repórteres comunitários. A produção de programas de rádio, vídeos, jornais locais e conteúdos para a internet alimenta a circulação de informações e campanhas educativas. O PSA usa a arte, o lúdico e a comunicação como principais instrumentos de educação.

A juventude é uma das prioridades, pois 47% da população das comunidades são menores de 15 anos. As novas gerações de ribeirinhos vivem contradições sociais, ambientais e também culturais, especialmente com a crescente influência dos padrões culturais do mundo urbano, e os colocando como principais vítimas do êxodo rural. A prática da educomunicação da Rede Mocoronga visa criar oportunidades de aprendizagem e inclusão social estabelecendo uma mediação sociocultural que permite à juventude da floresta estar antenada no mundo, sem perder sua identidade cultural.

Participam o município de Belterra (Cidade de Belterra, São Domingos, Maguari, Jamaraquá, Acaratinga, Jaguarari, Pedreira, Piquiatuba, Marai, Nazaré, Tauari, Paraíso, Prainha I) e Santarém (Muratuba, Maripá, Solimões, Vila Franca, Capixauã, Vista Alegre do Capixauã, Suruacá, Surucuá, Vila de Boim, Samaúma, Pinhel, Urucureá, Aninduba, São Francisco, São Pedro, Cachoeira do Aruá, Mentai).

BATE-BOLA
Leia um trecho do bate-papo virtual com Jardson Melo “Morenno”, de Suruacá [http://suruaca.redemocoronga.org.br]

Isabel: Qual sua idade? Qual sua função  no blog de Suruacá?
Morenno: Tenho 23 anos, minha função no blog é postar artigos para o próprio blog.

Isabel: Desde quando tem Net por ai? E o blog de Suruacá?
Morenno: Antes era peculiar, os meio a comunicação. Hoje tá muito ótimo, rápido e instantâneo. O blog existe desde o finalzinho de 2003.

Isabel: Suruacá está bastante presente no blog participativo da Rede Mocoronga… Explique como está funcionando a ferramenta.
Morenno: Nós estamos bem na onda do blog. O blog é da comunidade,  todos os moradores tem permissão para escrever. Temos muito o que mostrar. O blog é uma ferramenta muito sensacional para a divulgação de como vivemos no coração da Amazônia. Mostramos aos poucos aos internautas de qualquer lugar do mundo como a nossa cultura é.

Isabel: Os moradores têm escrito, ou é mais iniciativa de um grupo de jovens participantes das oficinas?
Morenno: Somos muitos jovens aqui. Nossa meta é colocar toda a juventude na rede do blog.

Isabel: Você acredita que ao mostrar sua cultura, você ajuda a preservá-la, ou a modificá-la?
Morenno: Bom, o que está no blog é só um pouquinho de nossa cultura. Acredito que conscientizando as pessoas a gente consegue preservar muito por aqui.

Isabel: Mas a internet favorece o contato com modos de vida muito diferentes… Vocês não ficam com vontade de viver como nas cidades, em outros lugares do mundo?
Morenno: Com a internet temos o mundo a nossa frente, com ela é possível conhecer todas os lugares do mundo sem sair da própria comunidade. Muitas pessoas aqui têm vontade de conhecer pessoalmente outros lugares. Muitas pessoas querem sair de seus lugares em busca de mais estudos e condições financeiras, pois aqui o ensino vai até o nível médio, e as pessoas querem ficar mais capacitadas no mundo do conhecimento. E a solução é sair para as cidades.

Isabel: Este tipo de reflexão, vocês fazem através do blog com as comunidades vizinhas?
Morenno: Sempre estamos numa roda de papo entre amigos… Suruacá fica meio distante de outras comunidades, e não temos muito entretenimento com os jovens de outras comunidades. Na região do Tapajós tem comunidades que tem uma estrutura muito boa, e a juventude manda muito nos pensamentos positivos; já em outras as coisas não rolam como deveriam.

Isabel: Quantas horas vocês passam na internet, escrevendo pra o blog ou navegando em sites variados?
Morenno: Aqui a internet ela é pública para os comunitários, mas nosso tempo de uso por dia é regulamentado. Temos um regimento interno que devemos seguir. Não podemos ficar o dia inteiro “logados” e escrevendo no blog. Ou sites de e-mails, páginas pessoais, de pesquisa, de esporte, de música…

Isabel: O que de mais importante você descobriu, ou conversou, na internet?
Morenno: O mais importante que eu já descobri foi O PODER DA MÍDIA QUE TRANSFORMA A VIDA DE UM SER HUMANO. Tem gente que pode não acreditar, mas estamos no meio do coração da Amazônia, e mesmo distante de tudo temos a sintonia que está acontecendo no Brasil e no mundo. A internet mudou a comunicação da comunidade… temos telefones públicos, mas nem sempre tá funcionando…

Isabel: Você já se sente um jornalista ou está buscando um caminho?
Morenno: Já participei de algumas oficinas de Jornal Comunicação Comunitária. Ainda não me sinto como repórter, mas vou buscar melhoria nessa área. Admiro quem faz jornalismo. Nos dias que o estudo salva muitas condições nesse mundo. Quem não tem estudo tá ferrado… Quero estudar.

Morenno: Não sou filho natural do Pará, mas pelo tempo que moro aqui já me sinto como filho adotado rsrrsr  Suruacá é 50% da minha terra natal, ao sair daqui, sempre vou ter saudade de voltar.

Isabel: De onde você vem?
Morenno: Sou de Manaus. Quando ainda criança minha mãe trouxe para cá e desde de então nunca mais voltei para Manaus. Aqui estudei até o ensino médio, agora tá chegando a hora de sair pra realizar meus projetos de vida.

Morenno: A gente pode ver esse papo em algum site?
Isabel: Sim. Na revista Envolverde (http://www.envolverde.com.br)
Morenno: Beleza!

(Agência Envolverde)

One Response to “Inclusão Digital à beira do rio Tapajós”

  1. mario batista Says:

    achei exelente a ideia da criaçao dos blogs das comunidades do tapajos-arapiuns, porem acho que os jovens nao estao sabendo aproveitar essa oportunidade de divulgar suas comunidades para o mundo, fato é que desde que foi criado, pouco se ler coisas novas, são sempre as mesmas coisas; será que não tem noticias a divulgar dessas cidades? Sou filho da região, mas moro em Spaulo há 35anos, gosto sempre de ler coisas da regiao; procurem atualizar as noticias.
    abraço, mario batista

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