Cultura Digital na floresta já é realidade

20 de dezembro de 2010 por Fábio Pena

Tema foi debatido no encontro da Teia Cabocla, com participação de Jader Gama, do Projeto Puraqué

Estar à frente de um computador pela primeira vez. Falar com um parente distante com o telefone celular. Publicar uma foto ou vídeo em redes sociais, diretamente de uma comunidade do rio Tapajós. Experiências que cada vez mais são vistas em nossa região.

Nos últimos anos, várias iniciativas vêm proporcionando a inclusão das comunidades na sociedade da informação. A implantação de telecentros da Rede Mocoronga e a chegada da conexão 3G com o apoio da Vivo, vem abrindo novos horizontes para os ribeirinhos, possibilitando interagir com a “outra margem do rio”.

Cultura Digital entendida como um processo onde as pessoas desenvolvem as habilidades de se comunicar a partir do uso das tecnologias digitais, desde o local em que vivem até o global no espaço que chamamos de sociedade da informação. Mas como fazer com que essa cultura digital que começa chegar nas comunidades, possa ter também o jeito da cultura local?

Jader Gama, Coletivo PuraquéO encontro da Teia Cabocla, foi um fértil laboratório que mostrou que isso já está acontecendo nas comunidades. Na tarde do dia 18/12, o diálogo começou com a participação de Jader Gama, do Projeto Puraqué, grupo de ativistas da inclusão digital e do software livre, um dos parceiros do Saúde & Alegria no Pontão de Cultura Digital do Tapajós.

De forma bastante motivadora, Gama interagiu com os participantes de diferentes comunidades. “Na realidade atual, o centro do mundo é onde você está. Não importa se você vive em São Paulo, em Belterra ou Capixauã. Se a gente tem equipamento tecnológico, conexão e conhecimento, quem é que disse que não podemos ter alguém documentando e divulgando para o mundo a cultura da comunidade”. Gama vai além. Ele acredita que não basta apenas as pessoas terem acesso aos meios, aos equipamentos, mas também que elas precisam entender como os sistemas funcionam. “Quem é que disse que não podemos ter um jovem montando programas de computador numa comunidade ribeirinha?”, pergunta lançando um desafio.

Em Suruacá, no Rio Tapajós, funciona desde 2003 o primeiro telecentro da Rede Mocoronga, com acesso à internet via programa GESAC do Governo Federal. Lá os moradores já sabem muito bem a diferença que faz estar incluído no mundo digital. “Essa revolução nós já estamos vivendo”, conta o jovem Nilson Correia, um dos monitores do telecentro e também locutor da rádio comunitária local, a Rádio Japiim. “Nós podemos baixar músicas da internet e melhorar a programação da nossa rádio. Também podemos divulgar notícias para a comunidade em tempo real. E ao mesmo tempo, divulgar nossas notícias no blog da comunidade”, comemora.

Mas há muitos desafios para promover a cultura digital nas comunidades ribeirinhas. Somente a Rede Mocoronga possui seis novos telecentros com infra-estrutura implantada a mais de um ano, que  aguardam a conexão do Programa GESAC. Apesar disso, Paulo Lima, coordenador de Inclusão Digital do Saúde e Alegria, tem boas expectativas. “O governo federal lançou o programa Telecentros Br, que vai apoiar a consolidação dessa rede e implantar 50 novos telecentros em nossa região. O programa vai ter também bolsas para ajudar na formação dos monitores dos telecentros”.

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Além dos telecentros, as comunidades estão experimentando o uso dos celulares com conexão 3G, possibilitado com a implantação de duas antenas da VIVO no Tapajós. Uma em Belterra e outra em Suruacá. E é nas coisas do dia a dia que podemos entender melhor o que significa cultura digital na floresta. O Jovem Aluízio Nunes de Souza, da comunidade de Paricatuba, rio Tapajós, contou que no primeiro dia em que receberam o celular comunitário 3G, não acreditavam que iria funcionar na comunidade. Por isso, “fomos testando durante toda a viagem no barco, ligando para as pessoas. Quando chegamos na comunidade, que surpresa, o celular deu sinal positivo!” Naquele mesmo dia, o equipamento já mostrou sua serventia. “Uma pessoa estava doente na comunidade e tivemos que chamar a ambulancha da prefeitura” Se não tivesse essa comunicação, a vida de uma pessoa poderia estar em perigo.

O mesmo smartphone que Aluízio usou para pedir socorro para a pessoa doente, pode ser usado para fotografar e filmar o dia a dia da comunidade. Hoje a Rede Mocoronga já conta com seis grupos capacitados para a produção de vídeos, que podem ser assistidos no youtube. Agora a expectativa é que essa produção aumente.

No encontro da Teia Cabocla, aconteceu a primeira oficina para a produção audiovisual com smartphones. A experiência já mostrou a diversidade de conteúdos que vem por aí.  Os participantes da Teia Cabocla vão poder participar do 1o Concurso de Cultura Digital com o tema: “O que é cultura na minha comunidade”. O resultado sai em fevereiro. É esperar para ver que debaixo da floresta da gente, tem gente filmando, fotografando e caindo na rede.

One Response to “Cultura Digital na floresta já é realidade”

  1. Gil Serique Says:

    Massa demais!!!

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