Governo do Pará prepara regularização de 1,2 milhão de hectares de terras em nossa região
22 de abril de 2009 por Fábio Pena
Vocês já ouviram falar que de onde se tira e não se põe, acaba? Não! Leiam e reflitam sobre o que está acontecendo com as madeiras das nossas florestas… Diariamente descem balsadas e balsadas de madeira vindos do Alto Arapiuns com destino sei-lá para onde. O interessante é: será que a madeira vai legalizada? E mesmo que vá, será que quem está vendendo, não vai sentir falta quando quiser fazer sua barraca, canoa ou até mesmo para o seu ganha-pão? Amigos, abram os olhos e não entreguem, pelo amor de Deus, as madeiras que estão em suas terras para essa catrafada de pessoas, que lhe oferecem merrecas e pequenos favores. Sabem por quê? Eles vão deixar vocês e nós na miséria, com fome e sem nada. Eles estão destruindo a natureza, gente! É uma covardia fazer isso com as florestas, e com vocês.
Editorial do Jornal Comunitário Sentinela de São Francisco, rio Arapiuns
Esta preocupação descrita no Editorial do Jornal Comunitário de São Francisco, comunidade do Rio Arapiuns, sobre a passagem freqüente das balsas com madeira, sem que a sociedade saiba a legalidade dessa exploração, preocupa muito principalmente os comunitários que vivem na região Mamuru-Arapiuns, composta pelas glebas Nova Olinda I, Nova Olinda II, Curumucuri e Mamuru.
A região vem sendo alvo de muitas disputas entre as comunidades tradicionais que lá vivem por centenas de anos, e os novos ocupantes do território, que chegam com seu poder econômico disputando o espaço com o objetivo de explorar os recursos naturais, especialmente a madeira.Esta situação vinha acontecendo já há bastante tempo, principalmente pela falta de uma política de regularização fundiária na região, que abre espaço para a ocupação sem critério e sem controle. O problema ganhou finalmente lugar na agenda pública do estado, que busca agora um ordenamento fundiário para este território.
Em maio de 2008 o Governo do Estado instituiu um grupo de trabalho formado pela Instituto de Terras do Pará (ITERPA), pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDEFLOR) e pela Secretaria de Meio Ambiente, encarregado de coordenador levantamentos, debates e a elaboração de uma proposta de destinação que contemple os diversos interesses locais e a política florestal e ambiental do Estado.
Através do decreto estadual nº 1.471, o Governo estabeleceu uma Limitação Administrativa Provisória (LAP) na região que valeu até 17 de fevereiro barrando atividades de exploração e estabelecendo um processo de discussão sobre o modelo de regularização e uso da área. Entraram em cena, então, os diversos atores interessados, principalmente as comunidades e aqueles ligados aos grupos empresariais que disputam terras na região.
Aconteceram diversos eventos, seminários, audiências públicas em que o Governo teve a oportunidade de coletar propostas da sociedade para encaminhar o processo. Com o apoio dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais, Comissão Pastoral da Terra (CPT), Fetragri e organizações não governamentais como o PSA, as comunidades elaboraram uma proposta em que defendem áreas para uso e sustento comunitário, bem como novas unidades de conservação. Um dos pontos importantes da discussão é quanto ao tamanho e limites dessas áreas. As comunidades defendem também uma participação ativa de suas representações no controle social dos futuros projetos destinados à região.
Na proposta do Governo do Estado está a criação de novas unidades de conservação, uso comunitário e concessão florestal. Neste último caso, prevendo que o Governo faria concorrência pública para definir quais empresas poderiam explorar determinada parte do território, respeitando uma série de critérios ambientais.
A diretora do IDEFLOR, Raimunda Monteiro, disse em chat realizado no dia 11 de março de 2009 que “a região Mamuru Arapiuns é uma referência de ordenamento territorial em que os recursos florestais passam a ser controlados pelo Estado, as 105 comunidades da região terão sua situação fundiária e florestal resolvida e O Estado passa a exercer governança sobre uma área que estava sujeita à ocupação desordenada e desmatamento”. Questionada se o processo de concessão florestal seria um tipo de privatização da floresta, a diretora afirmou que “ao contrário de privatização, trata-se de manutenção do patrimônio público sob controle público e sob condições em que os concessionários pagam pelo recurso florestal que utilizam de acordo com os preços de mercado.
Mas do lado das comunidades mantém-se a preocupação sobre em que bases se dará essa economia de base florestal e como será a participação das comunidades e da sociedade na gestão dessa proposta. Sabe-se que, por exemplo, uma empresa tem estrutura para gerenciar determinadas atividades, mas as comunidades não, uma vez que tem sua econômica baseada no extrativismo. “Defendemos a proteção da floresta e não queremos que nossos comunitários virem apenas empregados de madeireiras”, contesta Odair Borari, liderança indígena.
Nos dias 16 e 17 de abril aconteceu em Santarém, o Seminário Ordenamento Territorial do Conjunto de Glebas Mamuru-Arapiuns, onde o Governo do Estado apresentou os resultados das discussões anteriores e sinalizou os próximos passos do processo para cerca de 300 representantes da sociedade. Aconteceu também a reunião da Comissão Estadual de Florestas (Comef) com o objetivo de apresentar os resultados de uma série de estudos realizados. Além disso, os membros da Comef fizeram as últimas considerações sobre o processo de ordenamento. A expectativa é que até o mês de maio a governadora do Estado defina a destinação da área, ou seja, o que será voltado para concessão florestal, para manejo comunitário e para a criação de novas áreas de conservação.

