SOJA SUJA O OESTE DO PARÁ
28 de janeiro de 2009 por Fábio PenaMapeamento comunitário comprova impactos negativos da soja em dezenas de comunidades do estado
De Fernanda Papa (para a Cobertura da Vira Jovem, Ciranda e Rede Mocoronga)
Aliados em uma soma de lutas históricas por terra, manejo sustentável dos recursos naturais e reconhecimento de suas identidades, homens e mulheres ribeirinhos, indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais do oeste do Paraá encontraram uma maneira inovadora para detectar e denunciar os impactos negativos da soja sobre a vida de suas comunidades.
A novidade na comprovação deste fato vem de um trabalho de mapeamento comunitário, realizado em uma “amostra” do que pode estar ocorrendo em muitos outros lugares da Amazônia e do país. A região de Santarém e Belterra foi a área escolhida para este mapeamento, realizado entre maio de 2007 e junho de 2008 e cujos resultados estão sendo debatidos também no Fórum Social Mundial. A iniciativa do mapeamento veio dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais de Santarém e Belterra e das ONGs Saúde & Alegria e Greenpeace.
Gilberto Santos Guimarães, da Federação de Assentamentos e Comunidades Agroextrativistas da Gleba Lago Grande, e um dos participantes da oficina que discutiu o assunto na terça-feira, 27 de Janeiro, no navio Artic Sunrise, do Greenpeace, relata que o impacto negativo da soja tem sido sentido ha quatro anos. “O mapa trouxe pra gente o conhecimento da nossa área e a parceria com os quilombolas e os indígenas. Agora sabemos como era no passado e como está hoje.”
Para fazer o mapeamento, cerca de 50 moradores de 28 comunidades dos dois municípios aprenderam a usar o GPS e a interpretar imagens de satélite. Alguns pontos chamavam atenção pela transformação que vinham sofrendo e, por conta disso, foram visitados in loco pela equipe de comunitários. Eles e elas procuraram observar desmatamentos recentes, igarapés que secaram ou foram contaminados por agrotóxicos utilizados no cultivo da soja, entre outros pontos gritantes que não são comentados pelos relatórios de grandes empresas que insistem em propagar a idéia de que não estão prejudicando a natureza e as populações tradicionais com o avanço da soja na Amazônia.
No total, foram mapeadas 121 comunidades, das quais 29 sofreram grandes mudanças, desde a redução expressiva de seus moradores até o desaparecimento completo da vida da comunidade, em função das rotas da soja em determinadas regiões.
“Com a chegada da soja, as áreas onde a gente coletava frutas e outras coisas foram derrubadas e a caça ‘afujentada’. Perdemos castanheiras, abacabarás, madeira. O mapeamento ajuda a identificar os danos e as áreas ainda ocupadas pelos nativos”, conta Dileudo Guimarães dos Santos, do quilombo Bom Jardim e do Fórum de Organizações Quilombolas de Santarém.
Para Ricardo Folhes, coordenador do processo pelo Projeto Saúde & Alegria, o mapeamento é inovador pelo fato de aliar o conhecimento tradicional, “que ninguém mais tem”, com modernas técnicas de confeccionar mapas. “É uma experiência de mapeamento adaptada a realidade dos movimentos sociais. Aqui no FSM, mais do que falar da metodologia, vamos discutir o impacto do uso dos mapas, já que o mapeamento oficial mostra floresta, mas não mostra as comunidades, as pessoas, nem as lutas que elas travam.”
Folhes destaca ainda a importância da articulação entre os diferentes movimentos sociais para o estabelecimento de uma agenda publica que dialogue com as necessidades reais de preservação e manejo sustentável da floresta. “A interlocução com o poder publico está em curso, por meio de um processo participativo no município. A mobilização com movimentos gerou um relatório com propostas apresentadas às autoridades. Pela primeira vez os movimentos se anteciparam para apresentar uma proposta que se torna referencia para o governo estadual.”
Para o futuro próximo, a expectativa é de que estes grupos tenham autonomia para seguir com o trabalho. “Estamos também tentando titular nossas terras para depois poder reflorestar”, diz Dileudo. O agricultor Gilberto Santos concorda com o desafio central: “O presente eh o que a gente descobre que no passado a gente não sabia. E o futuro é o como vamos trabalhar para reverter o que foi devastado.”

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