Mocorongos e Besteirologistas se encontram

10 de agosto de 2009 por Fábio Pena

Um grupo desenvolve a linguagem do Circo na Floresta, promovendo a saúde e o desenvolvimento comunitário. É a trupe do Gran Circo Mocorongo do Projeto Saúde & Alegria – PSA, que surgiu tendo como receita a saúde, como alegria do corpo, e a alegria, como a saúde da alma. O outro grupo também utiliza a linguagem do palhaço, um mestre em beiteirologia, uma das artes e ciências mais antigas do mundo que passou a ser valorizada e resignificada, tendo a alegria, o humor e a diversão como receita que ajuda principalmente crianças a enfrentarem momentos difíceis de recuperação em hospitais. São os Doutores da Alegria, ONG sediada em São Paulo.

As duas organizações tem muita coisa em comum, pois sabem que a alegria não tira a seriedade do trabalho que fazem, ou ainda que o engraçado é que é sério. Foi isso que levou o Projeto Saúde e Alegria e os Doutores da Alegria começarem um diálogo para articular futuras parcerias. Nos dias 23 a 25 de julho, Wellington Nogueria, fundador e coordenador dos Doutores da Alegria esteve visitando o PSA, oportunidade na qual pôde conhecer o Barco de atendimento em saúde, Abaré, e o Circo Mocorongo na região do rio Arapiuns, durante uma Jornada de Odontologia.

Fábio Pena, coordenador de Educação, Cultura e Comunicação do PSA conversou com Wellington Nogueira à bordo do Abaré. A entrevista completa você lê a seguir:

Fábio Pena: Wellington, conte pra gente o que você está fazendo aqui na Amazônia?

Wellington: Eu estou conhecendo. Eu sempre fui fã do Projeto Saúde e Alegria. E sempre foi meu sonho conhecer o trabalho, porque vocês utilizam a linguagem do circo, a linguagem do palhaço. Eu sempre achei e o Eugenio (Fundador do PSA) também que nós tinhamos alguma uma conexão, mas não sabíamos qual era. Pra gente descobrir temos que nos conhecer. Então, foi por isso que eu vim aqui, pra poder ver o trabalho, pra que a gente posssa unir forçar. Porque os Doutores da Alegria tem muito o que aprender também sobre o que é um palhaço na floresta, pra que a gente possa somar esforços para ampliar o alcance da saúde e da alegria na Amazônia.

Fábio Pena: A gente como vocês, utilizamos um remédio que já é mais do que comprovado que é um santo remédio, é muito poderoso, que é a alegria. O que você tem a nos dizer sobre essa receita?

Wellington: Bobagem pouca é desgraça. E alegria não tem contra-indicação.

Fábio Pena: Conta um pouco mais pra nós como é o trabalho dos Doutores da Alegria. Você disse que vocês são doutores em besteirologia. Conte pra gente como é feito esse trabalho?

Wellington: O besteirologista é aquele palhaço que entra num hospital brincando que é médico e a criança finge que acredita. Então, da mesma forma que um médico entra num hospital e junto com as equipes de saúde está olhando para aquilo que está doente e precisa ser curado, o besteirologista olha para aquilo que está bom e precisa ser estimulado. Então, dessa forma, as duas equipes se complementam e os dois olham a criança de uma outra forma. E todo mundo percebe que quando a criança vive a experiência de alegria, ela entra em contato com seu lado mais saudável. É nessa hora que a criança toma nas mãos as rédias da vida dela, ela passa de paciente a dona da vida dela. E muda de atitude frente a doença.

Fábio Pena: O trabalho de vocês acontece principalmente dentro de hospitais, numa situação delicada, aonde a sensação da dor pode ser muito mais presente e maior do que qualquer outro sentimento. E vocês levam para esse ambiente a sensação da alegria. Que histórias você nos contaria em relação a essa experiência?

Wellington: Bom, nós temos várias histórias. E nós atuamos em 14 hospitais em São Paulo, Belo Horizonte e Recife. Em cada uma dessas cidades nós temos um elenco local. Duas vezes por semana, seis horas por dia, nós visitamos leito a leito cada criança, porque o momento da internação é o momento onde a criança continua sendo criança e querendo brincar, querendo viver a infância dela. E o que nós buscamos no encontro com a criança é isso. Porque o que toda criança hospitaliza tem em comum é que todas elas querem estar lá fora levando essa vida saudável. Eu acho fascinante a oportunidade de mesmo na doença e dentro de um lugar como um hospital, você poder abrir um espaço que existe para que a criança brinque e dessa forma ela também se recupere mais rápido.

Então, uma história que eu não esqueço, que não aconteceu comigo, mas com a Dra. Cirena, que hoje coordena nossa escola de formação. Ela usava uns adesivinhos coloridos, desses que usamos para por em envelopes, que ela usava como forma de tratamento. Ela punha essas pílulas no rosto das crianças e acabava formando um tipo de maquiagem.

Então, um dia ela visitou uma criança e fez todo o tratamento besteirológio. E quando ela estava indo embora, a criança chamou: – Espera aí Dona Cirena! Ela foi até o criado mudo, abriu e tirou aqueles adesivinhos todos amassados e sem cola, que dois meses antes ela tinha sido visita pela dra. Cirena e tinha recebido aqueles adesivos no rosto. Ela chegou em casa e guardou. Ai, todo dia ela olhava, porque ela teria que voltar para o hospital. Então quando ela voltou, levou os adesivos pra mostrar para a besteirologista.

Essas histórias me tocam muito porque falam sobre vínculo, encontro. Como é fascinante pra gente poder celebrar um encontro entre uma criança e um palhaço, entre duas pessoas que se conectam pelo que elas tem de mais saudável.

Fábio Pena: Muito bonito mesmo. Wellington, desse contato que você está tendo com a Amazônia, as comunidades e o trabalho do PSA, o que pinta na cabeça do palhaço nesse momento?

Wellington: Tanta coisa! Porque é muito forte essa experiência e muito complexa. Eu acabei de ver o trabalho do Circo Mocorongo que é lindo. E como as crianças participam! O que eu vi aqui foi a mesma alegria que as crianças tem também no hospital e nós vemos aparecer. Eu vi também nessas crianças, como elas entram na brincadeira, você não precisa fazer muito e elas aproveitam a oportunidade.

Então, isso foi fascinante conhecer as comunidades. Hoje nos Doutores da Alegria, nós estamos nos transformando em escola. Eu sempre penso que tem possibilidade de se aprofundar naquilo que a gente faz, gerar cada vez mais conhecimento, organizar, pra poder tornar isso método, pra poder expandir. Então, por exemplo, no nosso papo, vocês falam em ter mais um Abaré. Aí vai ser importante treinar, formar essas pessoas, então a gente tem uma experiência nessa área. Será que nós podemos ajudar a organizar esse conhecimento de vocês para ele ser disseminado. Será que nós podemos fazer uma cooperação artística? Será que podemos olhar o Abaré e o PSA como um espaço de aprendizagem e formação de palhaços e besteirologistas da floresta. Eu já vejo uma dupla de besteirologistas chegando aqui e trabalhando com o pessoal do barco e das comunidades e  fazendo parte do espetáculo do circo mocorongo. Eu acho que assim como para as crianças, as oportunidades são infinitas. Agora é a gente continuar esse nosso namoro, pra gente ver o que a gente quer fazer e investir.

Não estou aqui sozinho, porque eu estou junto no meu coração com outros 46 palhaços do Doutores da Alegria, e com mais 23 pessoas que trabalham na equipe de administração, estava todo mundo muito animado com essa perspectiva de estar aqui, porque para todos nós, o Saúde e Alegria é uma inspiração. É um trabalho pelo qual a gente tem profundo respeito e ao qual a gente se curva e aplaude, porque o que o Saúde e Alegria faz é de uma importância como poucas vezes a gente tem oportunidade de ver. Então, quero trazer nosso agradecimento, mas também nossos parabéns pra vocês pelo trabalho fabuloso e emocionante que vocês fazem.

Fábio Pena, palhaço Pimentinha, palhaço Tucupi (do PSA) e Wellington Nogueira

8 Responses to “Mocorongos e Besteirologistas se encontram”

  1. Jardson Says:

    Fala Fábio,
    li seu texto, tá bacana meu camarada. Eu nunca mais escreve preciso retomar ao velho costume.
    Saúde e Alegria com Doutores da Alegria combina, vc não acha?

  2. Fábio Pena Says:

    Valeu Jardson,
    Aparece de vez em quando no projeto.
    Inté

  3. Carolina Says:

    gostei muito desse trabalho estou ate fazendo um cordel com ele

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