Blogando de comunidades ribeirinhas na Amazônia

13 de março de 2009 por Paulo Lima

Fonte: Global Voices, por Deborah Icamiaba

Uma iniciativa muito interessante com blogs, chamada Rede Mocoronga , está acontecendo nas margens dos rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns, no seio da floresta amazônica. Mocorongo é o nome dado aos que nascem na cidade de Santarém, no Pará, cidade pólo da região. Jovens de comunidades ribeirinhas localizadas nos Municípios de Santarém e a vizinha Belterra uniram-se para expressarem-se, trocarem notícias e aprenderem sobre o mundo na internet.

O projeto é parte do trabalho que a ONG Saúde e Alegria tem feito na região desde 1987. O PSA, como a ONG é conhecida localmente, chamou a atenção do mundo quando colocou um time de médicos e palhaços a bordo de um barco para descer o rio prestando atendimento médico básico à comunidades isoladas. Desde o início, a metodologia deles combinou medicina e atividades circenses, pois acreditavam que associando saúde com alegria é possível alcançar melhores resultados. Quando os vemos tentando ensinar dúzias de crianças a escovar os dentes – o que não é um hábito local – você logo entende a lógica da coisa!

Uma educadora do PSA vestida para o dia de trabalho no barco Abaré. Foto de Deborah Icamiaba.

Uma educadora do PSA vestida para o dia de trabalho no barco Abaré. Foto de Deborah Icamiaba.

Hoje, tendo conquistado apoio internacional e adquirido um barco-hospital plenamente equipado, o chamado Abaré, o PSA trava parcerias com os Municípios para transportar seus médicos até as comunidades e também mobiliza médicos voluntários de todo o mundo para realizar intervenções mais sofisticadas, que não são facilmente realizadas na região, como operação de catarata.

 O barco-hospital Abaré estacionado numa comunidade do rio Tapajós. Foto de Deborah Icamiaba.

O barco-hospital Abaré estacionado numa comunidade do rio Tapajós. Foto de Deborah Icamiaba.

Apesar do foco do PSA ser a saúde, eles logo perceberam que problemas de saúde têm soluções interdisciplinares que passam pela economia local, o meio ambiente, a educação, o acesso a informação e a organização política. Diversas iniciativas nessas áreas foram criadas e uma delas é para fortalecer os recursos de comunicação social das comunidades, tanto na forma como elas se comunicam entre elas como na forma como elas se comunicam com o mundo.

A Rede Mocoronga nasceu de um projeto de capacitação de jovens das comunidades para tornarem-se repórteres comunitários, ensinando-os a produzir programas de rádio, vídeos, jornais e blogs na internet. Cada comunidade tem sua unidade de mídia com equipamento básico, equipamento se som, mesa editorial, equipamento de vídeo e conexão com a internet, que eles gerenciam da sua forma (até agora, somente seis comunidades têm todo o equipamento, mas a meta é que trinta e uma o tenham). As escolas são parcerias importantes deste projeto. A base do projeto é situada em Santarém, na sede do PSA, de onde seus funcionários disseminam notícias da região. Os jovens recebem as informações e repassam-nas para suas comunidades, assim como postam sobre a sua realidade, seus desafios diários e atividades culturais para o mundo inteiro.

 Crianças de uma comunidade ribeirinha do Rio Tapajós. Foto de Deborah Icamiaba.

Crianças de uma comunidade ribeirinha do Rio Tapajós. Foto de Deborah Icamiaba.

As seis comunidades que já tem seus blogs conectados na Rede Mocoronga são: Muratuba,  Cachoeira do Aruã, Piquiatuba, Maguari, Belterra e Suruacá

O barco Abaré tem também o seu blog na Rede.

Vista do barco Abaré para uma comunidade ribeirinha no Rio Tapajós. Foto de Deborah Icamiaba.

Vista do barco Abaré para uma comunidade ribeirinha no Rio Tapajós. Foto de Deborah Icamiaba.

Recentemente, a comunidade Suruacá relatou sobre como a comunidade se uniu para construir o seu centro comunitário. A força dos homens da comunidade foi muito valorizada, uma vez que os troncos de árvores tiveram de ser carregados manualmente:

Como na comunidade não tem transporte adequado para este trabalho árduo, a madeira é conduzida no ombro, na cabeça e de outras maneiras possíveis encontradas pelos próprios trabalhadores. A madeira fica com um percurso de 40 minutos do ramal de onde será conduzida com o auxilio de uma carroça-de-boi, diminuindo assim o sofrimento dos comunitários.

Adriane Gama, da sede do PSA, usou a rede para disseminar informações sobre os riscos das comemorações de carnaval para as crianças e jovens:

Estamos no mês de carnaval, de folia e alegria. Mas, em se tratando de crianças e adolescentes, devemos ter cuidados redobrados nessa época para que muitas delas não seja abusadas e aliciadas por pessoas que violam os direitos fundamentais infanto-juvenis. Para contribuir com a diversão e segurança das crianças e adolescentes nesse carnaval em Santarém – PA, o conselho tutelar e várias parcerias devem unir forças para o sucesso do trabalho.

Crianças de uma comunidade ribeirinha fazem fila para a inspeção dos dentes. Foto de Deborah Icamiaba.

Crianças de uma comunidade ribeirinha fazem fila para a inspeção dos dentes. Foto de Deborah Icamiaba.


A Rede Mocoronga também dissemina notícias internacionais para as comunidades. Por exemplo, no Fórum Social Mundial, que aconteceu no início do ano em Belém do Pará, alguns jovens participaram com os funcionários do PSA e juntos eles selecionaram para o blog da Rede artigos de canais de mídia que representassem suas percepções do evento. Como exemplo, eles publicaram um artigo indicativo da visão de que o Fórum Social Mundial foi conclusivo em diversos pontos, contradizendo o que a grande mídia disse sobre o evento.

A nona edição do Fórum Social Mundial (FSM) terminou neste domingo (01/02), em Belém, com a “Assembléia das Assembléias” adotando dezenas de resoluções e propostas que serão temas de um programa de mobilizações ao redor do mundo em 2009.
As 21 assembléias temáticas, assim, quebraram o que parecia ser um tabu do FSM, ou seja, adotar posições políticas comuns sob a pressão de milhares de grupos da sociedade civil, ansiosos por agarrar a oportunidade criada pela crise econômica global de uma mudança progressiva
.

Com uma variedade de notícias das comunidades ribeirinhas produzidas por jovens da região, dicas dos funcionários do PSA e uma crescente participação em eventos mundiais, a Rede Mocoronga é um canal interessante para qualquer um no mundo saber mais sobre como vivem as comunidades ribeirinhas da Amazônia, seus desafios, preocupações e o que pensam sobre os problemas do mundo.

Vista do porto de Santarém e o Rio Tapajós. Foto de Deborah Icamiaba.

Vista do porto de Santarém e o Rio Tapajós. Foto de Deborah Icamiaba.

13 Responses to “Blogando de comunidades ribeirinhas na Amazônia”

  1. Adnan Assad Says:

    Como posso ter acesso a informações sobre o Projeto Mocorongo, pois estou iniciando um projeto de energias altertivas (solar e microhidrelétrica)e consequentemente o acesso à internet das Comunidades Isoladas e/ou de difícil acesso do Estado de Roraima.
    Aguardo informações.
    Atenciosamente.
    Adnan Assad

  2. sra Lucimar C dos Santos Says:

    bon dia eu o ano passado fiz uma viagem com meu marido, saindo do porto de porto velho pra manaus foi uma viagem maravilhosa, eu contei esta semana pro sargento do exércto sou pensionista do exércto, eu pretendo fazer esta viagem de novo por outro motivo quero ver se eu consigo adotar uma criança ou duas pois nesta viagem eu presenciei uma coisa que me deixou triste crianças sendo vendidas nos barcos pra prostituição meninas de mas ou menos 5 anos se eu pudesse eu pegaria todas as crianças infelismente eu não posso,é muita pobresa, o que eu puder fazer pode ter certeza que faço eu tenho 50 anos tenho 2 filhos já casados e duas netas lindas. eu posso dar carinho e amor pra estas crianças um estilo de vida diferente ter um plano de saude atenção que elas merecem o mês de setembro eu vou a jurutis vou conhecer e tabatinga ai que vou começar a investigar sobre adoções

  3. samuel sousa lima Says:

    Que bom seria se os politicos se importassem pelo menos um pouco com essas comunidades riberinha e invertissem mais, pois são uns povos lutadores… que Deus ilumene os idealizadores desse projeto mocoronga que mais e mais jovens e comunidade possa ser atendidas

  4. Valdilene Says:

    sou dessa região por isso sei perfeitamente,oque é vc ser carente e esquecido pela sociedade,pretendo voltar,,,assim que concluir meu curso universitario…

  5. moacir Says:

    Conheço a região, tem um filho que é mocorongo, moro em florianópolis sou professor de matemática e física, e minha esposa bióloga, sabemos bem das dificuldades destas pessoas… Até já pensamos em nos deslocar até a região para dedicarmos um pouco de nosso conhecimento para ajudar essas pessoas. tanto na educação como em outros serviços como de saúde…

  6. MARCIO Says:

    Este projeto é um grande exemplo de educomunicação. Estive presente no momento em que od jovens das comunidades articulavam notícias e ao seu modo promoviam a circulação de notícias a quem não tinha muito acesso às informações por outros meios. A respostas que as comunidades dão aos estímulos que lhes são dados é muito rápida e eficaz, tudo isto devido ao sofrimento. Fui professor na comunidade do Maray, atendida pelo Proj Saíde e Alegria e percebi o quanto as ações educativas são fundamentais. O projeto iniciou o trabalho de se abandonar o pensamento de que para todos os problemas era preciso que alguém viesse a oferecesse a solução. Os jovens e demais comunitários iniciaram um trabalho de busca de respostas aos problemas que estavam em seu meio e que precisava de uma intervenção da prórpia comunidade, pois nenhum político poderia resolovê-lo. Isso é uma iniciativa que deve mobilizar todos os professores, líderes comunitários, religiosos e juventude para fortalecer a cidadania e a democracia comunitária. Parabens a todos os que contribuem para este projeto!

  7. geisa Says:

    oi gostaria de saber se tem um site com localizacao de todas as comunidades ribeirinhas do amazonas ,se tem mapa ,ou onde conseguir informacoes sobre isso.por favor ,eu preciso muito disso !!u abraço ,e parabens pelo seu projeto!!!

  8. carla da silva souza Says:

    Redemocoronga, eu tabalho em projeto cultural em beneficio de def. auditivos e preciso muito utiliar suas imagens, para isso necessito de sua autorização ou informar o custo de cada 1.Obrigada.

  9. carla da silva souza Says:

    Redemocoronga, eu trabalho em projeto cultural em beneficio de def. auditivos e preciso muito utilizar suas imagens, para isso necessito de sua autorização ou informar o custo de cada 1. Obrigada.

  10. judenira g.pereira Says:

    boa noite!!
    moro no interior de goias curso o ultimo perioldo de enfermagem na universidade fesurv.sempre leio e pesquiso sobre comunidades ribeirinhas,gostaria de saber mais visitando comunidade encontrei vcs na internet o trabalho que vcs fazem é lindo,pós a formatura quero trabalhar em um lugar como esse.peço por favor se alguma pessoa se interesar em me add meu msn é clara.amo@hotmail.com quero m uito conhecer essa culturarabalho , obrigada .

  11. judenira g.pereira Says:

    boa noite!!
    moro no interior de goias curso o ultimo perioldo de enfermagem na universidade fesurv.sempre leio e pesquiso sobre comunidades ribeirinhas,gostaria de saber mais visitando comunidade encontrei vcs na internet o trabalho que vcs fazem é lindo,pós a formatura quero trabalhar em um lugar como esse.peço por favor se alguma pessoa se interesar em me add meu msn é clara.amo@hotmail.com quero muito conhecer essa cultura e trabalho . obrigada .

  12. benedita clemente Says:

    oi, estou cursando o 4º periodo de pedagogia na fael belém. preciso muito de mais informações a respeito desse projeto.

  13. amadeu dos santos bispo Says:

    gostaria de saber noticias da comunidade

Deixe um comentário

*